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O MÉDICO E O MONSTRO: HÁ 120 ANOS, UMA HISTÓRIA INSPIRADORA

MÉDICO E O MONSTRO: HÁ 120 ANOS, UMA HISTÓRIA INSPIRADORA

Em 2006, O médico e o monstro (The strange case of dr. Jekyll and mr. Hyde), do escritor escocês Robert Louis Stevenson, completa 120 anos, sendo seguramente um dos livros mais adaptados para o teatro, cinema e televisão em todo o mundo. Segundo o próprio Stevenson, em entrevista publicada no The New York Herald de 8/09/1887, teria vindo-lhe em sonho o argumento para a história do médico que descobre, por meio da química, uma maneira de dividir suas porções boa e má, ou civilizada e selvagem.
O médico e o monstro é um precursor – senão fundador, ao lado de Frankenstein ou O Prometeu moderno (1818), de Mary Shelley – do gênero da ficção científica. Toda a linhagem dos "cientistas loucos" tem uma dívida com os doutores Frankenstein e Jekyll. A novela de Stevenson retoma o velho mito do duplo, resgatado pelo romantismo alemão na figura do Doppelgänger, tema já tratado em The private memoirs and confessions of a justified sinner (1824), do escocês James Hogg, ou A história maravilhosa de Peter Schlemihl (1813), de Adelbert von Chamisso, entre outros. À luz do pensamento freudiano, especialmente de O mal-estar na civilização (1930), não é difícil associar o dualismo que afeta o personagem Henry Jekyll à dicotomia que opõe civilização à instinto ou segurança à liberdade.
O tema do duplo estará presente, também, em outros escritos de Stevenson, como o excelente conto "Markhein". Vale a pena notar que, no pequeno prédio do Writer’s Museum, em Edimburgo, o acervo sobre Stevenson também sugere algo da dualidade (ou multiplicidade) do próprio escritor. Nele são retratados o Stevenson da fria e escura capital escocesa, a "cidade dos mortos", o das viagens pela França, o da vida em família e o do convívio com a cultura samoana do pacífico sul. Enfim, fragmentos da vida de um artista do mundo.
NO CINEMA Acredita-se que a primeira versão cinematográfica de O médico e o monstroseja americana, de 1908, dirigida por Otis Turner e produzida por William Selig. Nesse filme já são introduzidas as personagens da noiva e do sogro do dr. Jekyll, inexistentes na novela de Stevenson, mas absorvidas da adaptação teatral da história, em 1897, por Luella Forepaugh e George Fish.
Desde então, sucederam-se diversas adaptações de O médico e o monstro para o cinema, nos EUA, Dinamarca, Inglaterra, Alemanha e outros países. De 1914 em diante surgem as primeiras paródias ou adaptações livres. Dentre as mais célebres versões da novela de Stevenson estão a de John S. Robertson, de 1920, com John Barrymore; a primeira versão sonora, de Rouben Mamoulian, de 1931, com Fredric March (ganhador do Oscar por sua atuação como Jekyll/Hyde), e a de Victor Fleming, de 1941, com Spencer Tracy, Lana Turner e Ingrid Bergman – todas norte-americanas.


Em 1963, Jerry Lewis lança uma comédia hilariante inspirada na novela de Stevenson: The nutty professor (O professor aloprado). Ao longo dos anos 1970, 1980 e 1990, o plot de O médico e o monstro servirá de base para filmes diversos, os quais discutem da problemática racial ao tema da mudança de sexo. No Brasil, até mesmo Os Trapalhões usaram a história de Stevenson, com O incrível monstro trapalhão (1980), de Adriano Stuart, um dos melhores filmes do grupo. Mary Reilly (1996), de Stephen Frears, é um dos mais recentes filmes baseados na obra.
Outras obras do autor também serviram de inspiração no cinema. É o caso do romance A ilha do tesouro, que deu origem a outros inúmeros filmes ou séries de TV, como A ilha do futuro(L’isola del tesoro) produção ítalo-alemã de 1987, sob a direção de Antonio Margheritti, e a animação norte-americana Planeta do tesouro (Treasure planet) de 2002, de Ron Clements e John Musker, exemplos apenas do gênero da ficção científica.
Um retrospecto da influência de Jekyll e Hyde no cinema ilustra bem o poder de sedução de alguns personagens literários, cuja existência parece preceder e ir além da própria obra que lhes deu origem. Com base em sua experiência clínica, o médico Theodore Dalrymple comenta, em seu artigo "Mr. Hyde and the epidemiology of evil" (em The New Art Criterion, v. 23, nº 1, setembro de 2004, p. 24-8), que "mesmo pessoas iletradas, que nunca leram um livro em suas vidas, fazem uso de Jekyll e Hyde enquanto metáfora."
Stevenson já foi considerado autor de literatura juvenil e acusado de ser um escritor afetado. Contudo, a força de seus personagens e a atualidade de suas histórias tem contrariado opiniões negativas e garantido a sobrevivência de sua obra no decorrer dos séculos. Graham Greene, Ítalo Calvino e Jorge Luiz Borges estão entre os que consideraram Stevenson um mestre. No início deste ano, foi lançada uma nova biografia do autor escocês, escrita por Claire Harman (Robert Louis Stevenson – a biography, Harper Collins, 528 págs), marcando, talvez, o início de uma revisão crítica desse que foi um dos mais influentes contadores de histórias da literatura universal.

Alfredo Luiz Suppia
 

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