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Uma Sentença Pior do que a Morte

Uma Sentença Pior do que a Morte

[William Blake,Voices from Solitary]
 O norte-americano William Blake tinha 23 anos quando foi preso com drogas. Ao tentar escapar do tribunal onde estava sendo julgado, atirou e matou um policial. Condenado à prisão perpétua, vem desde então cumprindo sua pena numa “solitária” – já são 25 anos ininterruptos. O texto que se segue é uma carta em que Blake relata o horror a que vem sendo submetido desde que foi confinado em absoluto isolamento. Ao expor o impacto da longa solidão forçada sobre a mente humana – a loucura, o suicídio, a animalização dos comportamentos –, Blake nos força a refletir sobre esta forma de tortura quase invisível, porque sancionada pelo Estado e esquecida pela sociedade, mas nem por isto menos cruel.
*       *      *
 Enquanto aguardava de pé minha sentença, em 10 de julho de 1987, Kevin Mulroy, juiz da Suprema Corte do município de Onandaga, me disse: “Você merece a eternidade no inferno”. Aparentemente, ele pensava que Deus não era a única pessoa qualificada a decidir esta questão.
O juiz Mulroy disse também que queria “despejar 6 dólares de eletricidade em meu corpo”, embora eu ache que não fossem precisos nem 6 centavos para me matar. Ele devia estar querendo reduzir a mim e a cadeira elétrica a um monte de cinzas. Meu “amigo”, o governador  Mario Cuomo, não o permitiria fazer isso; no entanto, o juiz continuou a lamentar a inexistência da pena de morte em Nova Iorque devido aos sucessivos vetos feitos pelo Governador às moções aprovadas pelo legislativo estadual. Era compreensível que o governador Cuomo expressasse publicamente insatisfação ao ser chamado de “ meu amigo” pelo juiz Mulroy, dados os crimes pelos quais eu acabava de ser condenado. Verdade seja dita, eu também não dava a mínima para ele. Acho que construiu penitenciárias demais, e cortou programas acadêmicos e vocacionais que já existiam nas prisões.
Sei que o juiz Mulroy nem de longe estava sozinho em sua vontade de me ver executado pelo que crime que cometi quando, durante uma mal sucedida tentativa de fuga do tribunal da cidade de Dewitt, atirei em dois policiais do município de Onandaga, matando um e ferindo gravemente outro. Com certeza havia muitas pessoas na região de Syracuse que compartilhavam o mesmo sentimento. Li as cartas cheias de ódio publicadas nos jornais locais; eu podia até sentir a raiva das pessoas quando ia para o tribunal, de tão palpável que era. Até pelos padrões de minhas próprias crenças na época eu achava que merecia morrer pelo que tinha feito. Havia tirado a vida de um homem sem um motivo justo, cometendo um ato tão monumentalmente errado que eu não teria dito que seria injusto se tivessem pedido que eu o pagasse com a minha própria vida.
O que nem eu nem ninguém suspeitava na época, era que naquele mesmo dia eu começaria a sofrer uma punição que é sem dúvida alguma muito pior do que qualquer possível pena de morte. No dia 10 de janeiro de 2012, completei meu vigésimo quinto ano consecutivo numa solitária, na qual permaneço enquanto escrevo esta carta. Apesar de não ter morrido, e de portanto não saber o que exatamente a experiência traria, não consigo imaginar como a morte, seja de que jeito for, possa ser pior ou mais terrível do que tudo o que passei no último quarto de século.
Detentos a chamam de A Caixa. Autoridades penitenciárias eufemisticamente a batizaram de  “Unidade de Alojamento Especial”, ou UAE. A sociedade a conhece como “solitária”. É uma prisão de 23 horas por dia num espaço menor do que muitos closets que vi, com uma hora reservada para “recreação” num pátio de concreto ou, em algumas prisões, uma jaula feita de barras de aço. Não há nada num pátio de UAE a não ser ar; não há TV, bolas para brincar, jogos para jogar, outros detentos, nada.  Muito pouco é permitido numa cela de UAE. Três pares de cuecas brancas, um par de calças verdes, uma camisa de manga curta, um moletom verde, dez livros ou revistas, vinte fotos de pessoas que você ama, lápis e canetas, uma barra de sabão, escova de dente e pasta, um desodorante, mas não shampoo – e isto é tudo. Nenhuma roupa sua, apenas a da prisão. Nenhuma comida trazida por visitas, apenas 3 insossas refeições entregues através de uma gaveta na porta da cela. Nenhuma ligação telefônica, TV, nada de luxo. Você recebe um fone de ouvido vagabundo, e pode plugá-lo em dois ou três (dependendo da prisão em que esteja) canais disponíveis na parede da cela. Num canal você pode ouvir uma emissora de TV, e usar sua imaginação para tentar imaginar o que acontece quando a música sugere drama mas o diálogo não é suficiente para indicar o que está acontecendo. Ou você pode ouvir música, mas terá azar se for um fã de rock and roll e descobrir que só tem rap tocando.
Suas opções para passar o tempo numa UAE são escassas, mas o tédio é abundante. Você provavelmente acha que entende de tédio, sabe o que ele significa, mas na verdade você não sabe. O que você chama de tédio é para mim um turbilhão de atividades, tantas possibilidades que eu certamente ficaria tonto só de tentar escolher uma. Você pode ligar a TV e ver um filme ou um programa; eu não vejo uma TV desde os anos 80. Você pode dar um passeio na vizinhança; eu não posso andar mais do que alguns metros em qualquer direção sem dar de cara com uma parede de concreto ou uma grade de aço. Você pode pegar o telefone e ligar para um amigo; faz tanto tempo que não uso um telefone, que não sei se conseguiria lembrar como se faz uma chamada a cobrar, mesmo que o procedimento ainda seja igual. Você pode brincar com o seu cachorro ou gato, sentir o amor deles, ou observar seu peixe no aquário; as únicas criaturas que vejo diariamente são os ratos e as baratas que infestam a cela, e eles não são lá muito amáveis ou agradáveis aos olhos. Se você pensar bem, vai ver que há uma boa lista de opções disponíveis do que fazer, mesmo quando acredita que está entediado. Você não dá valor a elas porque estão sempre lá, mas se fossem tiradas você sentiria saudades de tudo que agora parece mais pequeno e insignificante. As menores coisas tornam-se grandes como a vida quando você não tem quase nada por tanto tempo.
Faz 4 anos que não vou a um dos pátios externos da UAE. Não vejo uma árvore ou folha de grama todo este tempo, e não os veria mesmo se fosse ao pátio. Na penitenciária de Elmira, onde estou detido no momento, os pátios da UAE são três ou quatros vezes o tamanho da minha cela. Há 12 pátios de UAE no total, cada um cercado por muros de concreto, e uma ou duas janelas. Se você olhar pelas janelas, verá a mesma paisagem da UAE na qual você vive, e talvez consiga dar uma olhada no cara que está preso ao seu lado há meses, com quem conversa todos os dias, mas que nunca tinha visto. Se você olhar para cima, encontrará grades e uma tela cobrindo o pátio, e se tiver sorte talvez possa ver um pouquinho de céu azul; senão, será até difícil acreditar que você está ao ar livre. Se for um dia bom, você poderá andar pelo pátio da UAE em pequenos círculos, olhando para frente com sua mente no nada, como o nada que existe dentro de você. Se, entretanto, for um dia ruim, talvez sua mente seja preenchida pelas memórias de tudo que você costumava ter e que há anos não vê, sentindo saudade, sentindo a perda, e sentindo-a demais.
A vida na Caixa é uma mesmice rigorosa que torna difícil distinguir um dia de mil outros. Nunca acontece de qualquer coisa dizer a você se é segunda ou sexta, março ou setembro, 1987 ou 2012. O mundo se transforma, a tecnologia avança, as coisas nas ruas mudam e continuam mudando. Mas não numa solitária. Nunca vi um telefone celular, a não ser em fotos de revistas. Nunca na minha vida toquei num computador, nunca naveguei na internet e não saberia como acessá-la mesmo se me colocassem sentado na frente de um micro, ligassem ele para mim e me dessem instruções. A UAE é um lugar fora do tempo, e digo honestamente que não há uma única coisa que eu possa ver hoje em dia quando olho ao redor que seja diferente do que eu via na solitária de Shawagunk, quando lá cheguei vindo da prisão municipal de Syracuse em 1987. Na verdade, provavelmente não há diferença alguma entre uma UAE de hoje e uma UAE de cem anos atrás, com exceção dos fones de ouvido. Há apenas poucos livros, roupas feitas na prisão, muros e grades e humanos presos em jaulas… e sofrimento.
Sempre há o sofrimento. Se conseguir escapar do seu próprio por algum tempo, você sentirá o dos que estão ao seu redor; e apesar de não conseguir enxergá-lo nos olhos deles, você talvez ouça durante a noite machões chorando lágrimas de garotinhas, que lhes são arrancadas pelo implacável stress e tensão exercida pela vida numa UAE.
Li estudos acerca dos efeitos do confinamento de longo prazo em solitárias sobre os detentos, pesquisadores dizendo que ele pode destruir a cabeça de uma pessoa, e vi com meus próprios olhos a lenta descida de homens sãos à loucura – às vezes, não tão lenta assim. Mas nunca vi os experts escreverem sobre o que ano após ano de isolamento abjeto pode fazer com a nossa parte imaterial, na qual a esperança vive ou morre, e onde o espírito reside. Então, por favor, permita-me contar a você o que eu vi e senti durante alguns dos períodos mais difíceis da minha odisséia de 25 anos numa UAE.
Vivi tempos tão difíceis e senti tédio e solidão a tal ponto, que parecia uma coisa física dentro de mim tão espessa que chegava a me sufocar, como que tentando expulsar a sanidade da minha mente, o espírito da minha alma, a vida do meu corpo. Vi e senti a esperança se transformar numa coisa nebulosa e efêmera, difícil de se agarrar, mais ainda de manter à medida em que os anos e depois décadas desapareciam enquanto eu permanecia preso no vazio do mundo da UAE. Vi mentes descendo a ladeira da sanidade, mergulhando na loucura, e tive medo de acabar pirando de vez, como os caras ao meu redor. É triste assistir um ser humano enlouquecer diante dos seus olhos porque não consegue agüentar a pressão que a Caixa exerce sobre sua mente, mas é ainda mais triste ver os espíritos sendo expulsos das almas. É mais catastrófico. Às vezes os guardas os encontram pendurados e azuis; às vezes seus pescoços quebram quando pulam das camas, o lençol amarrado na grade que cobre a luminária da cela estalando com o estirão. Vi espíritos deixando os homens na UAE, e testemunhei os resultados.
Não há no planeta Terra lugar igual a Caixa. É um lugar onde homens cheios de ódio podem ficar na porta de suas celas fulminando seu vizinho ou vizinhos, gritando e berrando e falando algumas das palavras mais nojentas que jamais saíram de uma boca humana, fazer isso por horas a fio, e mesmo assim não perder um único dente ou ter a cabeça arrancada do pescoço. Em lugar nenhum do mundo você ouvirá palavras mais desprezíveis ou verá guerras verbais mais insanas do que as que ocorrem o tempo todo numa UAE, porque haveria violência pesada antes que qualquer pessoa pudesse falar tanta maldade por tanto tempo. Ao contrário de outros lugares, na Caixa as grossas barras de aço permitem que as bocas continuem falando impunemente, enquanto o ambiente dolorosamente conduz a uma raiva excessivamente quente que parece forçar os lábios a extremos grotescos. Dia e noite fui acordado pelo descarrego barulhento do ódio nas portas da UAE, e eu seria um mentiroso se dissesse que por vezes não fui um dos loucos a gritar.
Houve meses em que a primeira coisa que me dava conta ao acordar era o fétido cheiro de fezes humanas, tingido pelo odor ácido de urina velha, e eu tomava o meu café da manhã, comia almoço e jantar com o mesmo fedor violentando meus sentidos, e meu último pensamento antes de dormir era “Diabos, isto aqui cheira à merda”. Senti como se estivesse numa ilha cercada por tubarões cruéis, cercada por todos os lados de prisioneiros mentalmente doentes que arremessavam seus excrementos nas paredes de suas celas, nos corredores e até em si mesmos. Vivi dias tornados semanas, que pareciam não ter fim, sem que eu pudesse dormir mais do que sonecas rápidas antes de ser arrancado de meus sonhos pelos urros de homens doentes que tinham perdido o controle, batendo-se contra grades ou paredes. Exausto pela impossibilidade do sono, fui dormir no pátio durante uma nevasca.
O vento soprava forte e os flocos de neve flutuavam e flutuavam no pequeno pátio da UAE de Shawangunk, e eu não vestia nada além de um casaco vagabundo feito na prisão e um conjunto de malha por baixo. Para escapar do árduo frio, cavei por entre a montanha de quase 2 metros de neve feita pelos detentos, que abriram com pás um caminho para que pudessem andar por ali. Com as mãos desprotegidas já anestesiadas, cavei um pequeno buraco naquele monte de neve, fazendo uma espécie de iglú. Quando terminei, engatinhei para dentro dele, deitei de costas no concreto coberto de neve e quase que instantaneamente caí no sono, a cabeça apoiada na neve. Não tinha sequer um boné.
Mais ou menos uma hora depois, os guardas me acordaram e me levaram de volta ao fedor e à insanidade: “Blake, a recreação acabou”. Eu tinha dormido uma hora direto, menos os minutos que levara para cavar o iglú. Era mais do que eu havia conseguido em semanas sem ser acordado no susto pelo “CRE-EK” de um tênis batendo no acrílico que cobria a cela de um prisioneiro que tinha perdido as estribeiras; ou pelo “BUM-BUM-BUM” de um detento se batendo contra a parede de sua cela; ou pelo barulho de grades sendo golpeadas, portas chutadas ou chacoalhadas; ou por homens gritando como se fossem morrer, talvez desejando que estivessem morrendo; ou pela desgraça de prisioneiros extravasando a raiva represada num guarda ou num outro prisioneiro, soando perfeitamente como o lunático que o longo confinamento na Caixa o havia transformado.
Estive tão fisicamente exausto, a força mental sendo testada num nível suficiente para quebrar até os mais fortes, que mesmo me achando um cara durão implorei a Deus, “Por favor, Senhor, faça com que eles parem. Por favor, me deixe ter alguma paz”. Como minhas preces não foram atendidas e a insanidade ao meu redor persistia, senti meu próprio ódio crescendo além da exaustão e do sofrimento, e então eu não mais suplicava: “Senhor, por que você não mata estes filhos da puta!”. Gritei para o Todo Poderoso, minha própria sanidade tão perto de me abandonar que era como se eu estivesse andando num precipício vendo onde cairia, vendo onde tomaria o tiro, a sanidade assassinada pela queda. Posteriormente eu teria medo, ficaria aterrorizado, pensando o quão perto estive de enlouquecer; mas naquele momento tudo o que eu podia fazer era sentir uma raiva ardente: raiva dos maníacos que faziam o barulho, o fedor e a loucura; raiva dos guardas e dos criadores daquele inferno; raiva da sociedade, por se fingir de cega para o tormento e a tortura que acontecem aqui, e que os seus impostos financiam; e acima de tudo talvez, raiva de mim mesmo por ter feito o que fiz, e que nunca deveria ter feito, e que antes de mais nada me colocou nas garras deste sistema prisional bestial. Tinha raiva do mundo; queimava de raiva, na verdade.
Coloquei papel higiênico molhado nos dois ouvidos, meias dobradas por cima, um travesseiro ao redor do pescoço e das orelhas, e um cobertor segurando tudo no lugar, enquanto deitava na cama e rezava para que conseguisse dormir. Ainda assim o barulho era incrível, uma cacofonia relampejante de loucura, o sono impossível. Detentos perdidos em espasmos de ódio incandescente xingando uns aos outros por razões que eles mesmos não sabiam dizer, ameaçando matar as mães, pais e até os filhos dos outros. Nada é sagrado numa UAE. É um ambiente tão repulsivamente anormal, tão antitético às interações humanas normais, que retorce o interior dos homens que nele residem por muito tempo. Sua mente, moral e comportamento são terrivelmente amassados, acabam saindo do eixo. O “certo” vira qualquer coisa, e o “errado” deixa de existir. Autocontrole torna-se um fardo, desnecessário com concreto e o aço que separa a todos, então os detentos descarregam tudo. Dia após dia, talvez ano após ano, a raiva cresce, alimentada pela dor causada pelas condições, até o ponto em que dá lugar a um ódio tão quente que chega a queimar e doer.
Tentar colocar em palavras o que é tão diferente de tudo o que conheci ou vivi parece uma tarefa impossível, porque não há nada sequer vagamente parecido, nenhum lugar semelhante que se possa comparar, e nada capaz de fazer com o seu interior o que todos estes anos de UAE fizeram comigo. Tudo o que consigo articular sobre o mundo das Unidades de Alojamento Especiais, o que ele é e o que ele faz, pode de fato parecer terrível a você, mas a realidade de viver neste lugar por um quarto de século é ainda mais terrível. Você teria que viver aqui, sentir em todos os seus aspectos a totalidade dos dias e das batalhas que vão se acumulando, para realmente compreender o quão verdadeiramente terrível tem sido este meu sofrimento, e o quão horrível é a vida numa caixa, mesmo que só por um dia. Fiquei 9 anos na caixa de Shawangunk, 6 na de Sullivan, 6 na de Great Meadow, e 4 aqui na de Elvira, e durante todo este tempo eu nunca passei um dia sequer numa cela da unidade de Saúde Mental, seja por tentativa de suicídio ou por qualquer outra razão. No passado, pensei sobre suicídio em dias especialmente difíceis de aturar, mas continuo aqui. Alguns de meus colegas de UAE sucumbiram a pensamentos suicidas, preferindo a morte a viver um outro dia na Caixa. Vi uns caras desistirem de seus sonhos e perderem toda a esperança na Caixa, mas meus sonhos e esperanças continuam bem vivos dentro de mim. Os trabalhos insidiosos do programa da UAE ainda não conseguiram me fazer vagar pelo caminho da destruição interna no qual muitos de meus vizinhos acabaram, e talvez isto seja um milagre; prefiro morrer do que perder o controle da minha mente.
Se soubesse em 1987 que passaria os próximos 25 anos numa solitária, certamente teria me matado. Se minha morte demorasse um mês, e se cada minuto dela fosse de dor excruciante, ainda assim seria muito mais fácil de suportar do que estes últimos 25 anos. Se tento imaginar que tipo de morte, mesmo uma bem lenta, seria pior do que os meus 25 anos na Caixa – e eu já tentei imaginá-la –, não consigo pensar em nada. Podem me tacar fogo, me espancar e me triturar, cortar em pequenos pedaços, esfaquear, metralhar, podem me fazer qualquer coisa quando estiverem num de seus piores dias, e mesmo assim nada disso chegaria perto de me fazer sentir o acúmulo de horror que experimentei na solitária com o passar dos anos. A morte seria rápida se você ou o Estado fossem me matar; na UAE, morri milhares de mortes internas. A soma de meu sofrimento neste quarto de século é ruim a este ponto.
Para alguns juízes que, do alto de suas cadeiras, nunca passaram um dia numa caixa, talvez 25 anos de todo esse sofrimento não seja tão cruel ou incomum. Para pessoas que têm uma fome insaciável por vingança contra prisioneiros que cometeram crimes terríveis, talvez nem importe o quão cruel ou incomum o meu sofrimento é ou deixa de ser. Para aqueles que não sabem deixar o ódio para trás e perdoar, não importa a quantidade de remorso ou o nível de arrependimento, somente um pagamento infindável seria justo aos seus olhos. Assim como para o juiz Mulroy, apenas a eternidade no inferno os deixariam satisfeitos. E se até isso fosse conseguido, ainda assim os rancorosos incapazes de perdoar não estariam felizes, pois o inferno não seria quente o suficiente; eles iriam querer ligar a calefação. Felizmente, são poucos; a maioria sabe que chega uma hora em que é preciso parar.
Não importa o que todo mundo pense sobre coisas que não conseguem imaginar em seus piores pesadelos, eu sei que 25 anos numa prisão solitária é sem dúvida totalmente cruel, mais do que a morte numa cadeira elétrica, câmera de gás, injeção letal, bala na cabeça, ou mesmo imolação. A soma do sofrimento causado por qualquer uma destas mortes rápidas é algo pequeno se comparado à soma do sofrimento que este quarto de século na UAE me fez sentir. A prisão em solitária durante todo este tempo, mesmo que sem as condições inumanas que muitas vezes tive que suportar, é um tipo terrível de tortura; e qualquer um que não pensa assim certamente não sabe o que diz.
Eu cumpri uma sentença pior do que a morte.
Tradução Antonio Engelke
CorcoranPrison
Prisão

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