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Facções criam narrativa do terror

Facções criam narrativa do terror: até onde vai?

20/01/2017 15:44
Por Rogério Jordão 
As facções que dominam os presídios brasileiros criaram uma narrativa de terror. Não basta matar, esquartejar, decapitar. É preciso filmar, fotografar, distribuir as imagens. A guerra nos presídios parece ter tomado uma dinâmica própria que inclui estratégias de comunicação. Duas chacinas pró PCC, uma contra. Mais de 100 mortos no Amazonas, Roraima e Rio Grande do Norte. A conta uma hora vai fechar?
Até aqui o revide de uma facção contra a outra embutiu um elemento de espetáculo tenebroso. A matança seguinte precisar ser mais horrorosa do que a anterior. Quem teve estômago para ver as imagens disponíveis nas redes percebe isto. Haverá uma próxima? Com quais requintes de crueldade e brutalidade?
Cabeças em pátios cheios de sangue. Cabeças separadas de corpos retorcidos. Filmetes de homens cortando cabeças de cadáveres. Restos de braços e pernas em padiolas. Tudo isto no Brasil. Diz respeito a todos nós. Nos lembra, para além da banalidade com que o mal é produzido, o quão longe chegamos na rota da desagregação. Desagregação do que? De tudo: da ideia de nação, de comunidade, de valores, de contrato social. Os presídios superlotados e sem condições de certa forma espelham o país. Quando cabeças são cortadas e exibidas tudo e qualquer coisa pode acontecer em qualquer lugar e a qualquer hora.
Se de alguma forma se torna banal vermos decapitações – invariavelmente acompanhadas de sinais de positivo no youtube indicando apoio de internautas – então qual é o padrão de convivência de todos com todos no dia-a-dia? No Brasil das decapitações a régua do que é certo e errado desaparece no turbilhão das galerias. O vácuo transpõe os muros e deságua nas ruas, mais dia menos dia. E o que faremos quando cabeças começarem a rolar nas praças e avenidas à luz do dia, quem sabe sob o aplauso geral de uma população desamparada e amedrontada?
A banalidade do mal desafia as palavras e os pensamentos. Com esta reflexão a escritora Hannah Arendt encerrou seu livro Eichmann em Jerusalém, um relato sobre a banalidade do mal. Arendt escreveu sobre o julgamento de Adolf Eichmann, o oficial da SS nazista responsável pelo transporte de multidões de judeus para os campos de extermínio na Segunda Guerra. Capturado na Argentina em 1960 foi levado para um tribunal em Israel e condenado à morte. A banalidade do mal, nos diz Arendt, acontece quando este deixa de ser uma tentação proibida e vira a norma introjetada em cada cidadão.
Este “longo curso de maldade humana” perpetrado pelo nazismo nos ensinou sobre os riscos da banalidade do mal, que “desafia as palavras e os pensamentos”, escreveu a pensadora.
Acho que é isso: o espetáculo de maldade humana que emerge dos presídios brasileiros desafia as palavras e os pensamentos. Encará-lo se coloca como o primeiro desafio real do Brasil neste ano que mal começou. O dia que resolver, em um colossal esforço conjunto de governos, empresas, polícias, corporações, juízes, cidadãos, o nó do horror prisional, o país terá dado um passo enorme para reivindicar-se, quiçá de novo, como nação.
Portal Gazeta Do Amazonas (Reprodução autorizada mediante citação do Portal Gazeta Do Amazonas 

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