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A coletivização da agricultura Soviética







Uma tragédia esquecida: a coletivização da agricultura na União Soviética

Alexandre B. Cunha

1   Introdução

A coletivização da agricultura na URSS foi talvez o mais trágico episódio da sangrenta história do socialismo. Aproximadamente 120 milhões de camponeses que até então eram pessoas relativamente independentes se transformaram em servos do estado soviético. Como consequência direta dessa política, seis milhões de pessoas morreram de fome durante os anos de 1932 e 33.
A leitura de qualquer texto minimamente sério sobre a coletivização da agricultura na URSS é uma experiência chocante. Por exemplo, de acordo com Werth (1999, p. 146), esse gigantesco crime fez com que “[…] dois milhões de camponeses fossem deportados (1,8 milhão apenas em 1930 e 31), seis milhões morressem de inanição e centenas de milhares falecessem como resultado direto da deportação. Esses dados, contudo, fornecem apenas uma visão parcial da dimensão dessa tragédia” (trecho entre aspas em itálico traduzido do inglês por este autor; o mesmo comentário se aplica aos demais trechos deste texto que estiverem marcados de forma similar).
A natureza monstruosa da política de coletivização foi implicitamente admitida pelo seu principal arquiteto, o ditador soviético Joseph Stalin. Conforme narrado nas memórias de Winston Churchill (2005, p. 712-713), em uma conversa ocorrida em 13 de agosto de 1942, o então primeiro-ministro britânico perguntou ao tirano socialista se as tensões da II Guerra estavam sendo tão fortes quanto as decorrentes do processo de coletivização. Em resposta, Stalin afirmou “Oh, não. A política das fazendas coletivas foi uma luta terrível”. Tendo em vista que o exército nazista chegou a ocupar uma imensa extensão do território soviético e que no final de 1941 esteve prestes a conquistar Moscou, tal afirmativa evidencia a intensa e desesperada resistência dos camponeses à política em questão.
Uma das perguntas que surge quando se toma conhecimento dessa tragédia é como ela pode acontecer em pleno século XX e ser quase ignorada. Segundo Solzhenitsyn (1978, p. 350), os camponeses “[…] não tocavam violino. Eles não sabiam quem era Meyerhold ou quão interessante é ser um físico nuclear“. Desta forma, a maior parte das vítimas não tinha como colocar no papel a sua trágica saga.
O autor do presente texto acredita que um segundo aspecto foi crucial para que a tragédia da coletivização soviética fosse quase que esquecida: ela ocorreu em um país socialista. Se qualquer grupo de indivíduos tivesse sofrido sob o jugo de algum governo que não fosse ‘progressista’ 1% daquilo que os camponeses da URSS sofreram, então existiriam inúmeros e belíssimos artigos, livros, reportagens e filmes sobre o assunto. Porém, a tragédia em questão é inconveniente demais para o establishment intelectual do mundo ocidental. Afinal de contas, os seus professores, escritores, jornalistas e cineastas são majoritariamente esquerdistas. E essas pessoas somente se dispõem a falar sobre as tragédias que contribuam para o avanço do ideário ‘progressista’.
Este texto tem sete seções além desta introdução. A seção 2 contém uma breve exposição sobre o contexto histórico em que a coletivização ocorreu. Alguns elementos básicos da agricultura soviética são abordados na seção 3. A coletivização propriamente dita é discutida na seção 4. Os seus resultados são comentados na seção 5. Os relatos de algumas testemunhas são apresentados na seção 6. A seção 7 contém as considerações finais. Uma estimativa do número de camponeses afetados pela socialização da agricultura é apresentada no apêndice.

2   Contexto histórico

Os bolcheviques chegaram ao poder, pela força, em novembro de 1917. Um dos primeiros atos do seu governo foi abolir a propriedade privada da terra. Consequentemente, todos os lotes pertencentes à nobreza, à igreja e aos monastérios foram confiscados. As comunidades camponesas passaram a ter total controle sobre o uso da terra. Apesar de não ter se transformado formalmente em proprietário da terra, o camponês passou a ter considerável autonomia para utilizar os lotes que lhe eram alocados.
A relação do partido bolchevique com os camponeses sempre foi difícil. Antes de chegar ao poder, o partido tinha influência junto aos soldados das forças tzaristas e aos trabalhadores urbanos. Porém, a sua penetração no campo era praticamente nula. Ao longo dos seus primeiros anos no governo, os bolcheviques frequentemente confiscavam parte ou mesmo toda a produção agrícola. Os camponeses foram proibidos de vender a sua produção nas cidades. Rebeliões camponesas eram comuns, sendo que a mais forte delas ocorreu em 1920 e 21 na província de Tambov. Aproximadamente 100 mil soldados foram utilizados para sufocar aquele levante.
A guerra civil se encerrou em março de 1921. O governo então abandonou a política econômica que era conhecida como Comunismo de Guerra e adotou a NEP (Nova Política Econômica). A NEP permitiu o renascimento do capitalismo em diversos setores da economia. No caso particular da agricultura, os confiscos mencionados acima foram substituídos por impostos comedidos. Adicionalmente, os camponeses passaram a ter direito de vender os seus produtos nas cidades. A produção agrícola cresceu e a vida dos camponeses voltou a ter algum ar de normalidade. Pode-se dizer que a NEP ocasionou uma trégua entre o governo e os camponeses que duraria até 1928.

3   Alguns elementos básicos

3.1   Os motivos

Pelo menos quatros fatores motivaram a decisão da ditadura soviética de coletivizar a agricultura. O primeiro está relacionado ao fato de que o governo almejava ter total controle do país. Em 1928 os comunistas estavam estabelecidos no poder. Todos os demais partidos políticos haviam sido extintos. A vida nas cidades era rigidamente controlada pelo estado. Porém, o setor agrário ainda era essencialmente capitalista. De acordo com os dados do censo de 1926, 82% dos 147 milhões de habitantes do país viviam no campo e 83% da população ativa trabalhava no setor agrícola. Assim sendo, o governo acreditava que para se perenizar no poder era necessário controlar o campo da mesma forma que controlava as cidades.
O segundo motivo foi a introdução dos planos quinquenais. Em 1928 a NEP foi abolida e a economia passou a ser totalmente controlada pelos planejadores de Moscou. Dentro da desastrada lógica (ou falta de) do sistema de comando central, era necessário que a atividade econômica estivesse inteiramente sob o controle da GOSPLAN (sigla do poderoso Comitê de Planejamento Estatal). Vale ressaltar que naquele ano o estado voltou a expropriar a produção agrícola.
O objetivo de industrializar o país de forma acelerada também contribuiu para a decisão de coletivizar a agricultura. Os recursos necessários para financiar a construção de fábricas, prédios, ferrovias, máquinas, etc. deveriam ser obtidos principalmente a partir da exploração dos camponeses. Ou seja, eles seriam sub-remunerados para que o estado obtivesse no setor agrícola um lucro suficientemente alto para investir na industrialização.
O último fator foi dado pela errônea crença de que a coletivização faria com que a produção agrícola do país aumentasse consideravelmente. Essa conjectura estava errada por larga margem. Conforme será discutido na seção 5, o efeito da coletivização foi exatamente o oposto.

3.2   As fazendas coletivas

Existiam dois tipos de fazendas coletivas na URSS: sovkhoz e kolkhoz. O primeiro deles era essencialmente uma empresa estatal. Os indivíduos que lá trabalhavam eram empregados do estado soviético. Usualmente, uma fazenda do tipo sovkhoz era constituída pelo estado em um dos grandes lotes de terra confiscados da nobreza após a revolução de 1917.
Um kolkhoz era formalmente uma cooperativa agrícola. Ele era formado a partir da união de diversas pequenas fazendas. Assim sendo, o processo de coletivização teve como objetivo fazer com que os milhões de pequenos fazendeiros aderissem ‘voluntariamente’ a um kolkhoz. Porém, na prática as adesões foram majoritariamente compulsórias.
Tanto em um kolkhoz como em um sovkhoz, o trabalhador não poderia deixar a fazenda sem permissão superior. Até 1969, a legislação soviética exigia que as pessoas nascidas em uma dessas fazendas lá trabalhassem quando adultas. Ou seja, exatamente como na servidão feudal, o camponês estava preso a terra. Desnecessário dizer que a remuneração dos camponeses era irrisória em qualquer um dos dois tipos de fazenda.

3.3   Os kulaks

Até a revolução de 1917, o termo kulak era utilizado para designar um camponês mais afluente do que os seus pares. Frequentemente, ele era proprietário de terras. De forma aproximada, originalmente os kulaks constituíam uma espécie de classe média rural. Eles eram mais ricos do que a maior parte do campesinato. Porém, eles não eram grandes latifundiários como os membros da nobreza russa.
Após a revolução, as terras da nobreza foram expropriadas. Os kulaks passaram então a ser os indivíduos mais ricos das áreas rurais. Para o regime bolchevique, todo kulak era um inimigo de classe. O governo soviético não hesitou em satanizar os kulaks. Posteriormente, o termo passou a ser atribuído a todo e qualquer camponês que não fosse pobre.
É importante observar que vários camponeses foram bem-sucedidos economicamente durante o período da NEP, a qual era uma política do estado soviético. Porém, mesmo aqueles que se “transformaram” em kulaks graças ao seu sucesso durante a NEP foram posteriormente perseguidos. Fenômeno similar aconteceu com pequenos empresários urbanos. Ou seja, ser bem-sucedido dentro de regras definidas pelo próprio governo poderia fazer com que um indivíduo viesse a se tornar vítima da repressão estatal.

4   O desenrolar da tragédia

4.1   A ofensiva bolchevique

Em 1928, ocorreu uma escassez de produtos agrícolas na URSS. Para Stalin e os demais criminosos do Kremlin, esse evento era decorrente da recusa dos camponeses em vender grãos e outros produtos aos preços determinados pelo estado. Assim sendo, o governo retomou a política de requisição forçada de grãos e outros itens dos camponeses. Evidentemente, um confisco nunca era um evento pacífico. A sua realização envolvia o envio de agentes armados às vilas e fazendas para expropriar, se necessário à força, produtos localizados em silos, armazéns, igrejas, outros esconderijos e até mesmo dentro dos lares dos camponeses.
A escassez persistiu em 1929. A resistência e/ou incapacidade dos camponeses em entregar o volume de grãos desejado fez com que em novembro daquele ano o governo decidisse que era chegado o momento de coletivizar a agricultura.
A incorporação de uma família ao sistema de fazendas coletivas se daria, teoricamente, de forma simples. A família se afiliaria a um kolkhoz. Porém, ao tomar essa decisão, ela estaria obrigada a entregar para a cooperativa o seu lote de terra, os seus animais, as suas ferramentas e também os demais utensílios. Ou seja, para desfrutar do ‘privilégio’ de fazer parte de um kolkhoz, uma família de camponeses deveria abrir mão de quase todos os seus pertences e ingressar na cooperativa com um pouco mais do que a roupa do corpo.
Evidentemente, os camponeses não fizeram fila para ingressar nos kolkhozes. Por sua vez, os agentes do governo socialista não hesitaram em utilizar métodos não muito sutis de persuasão. As primeiras vítimas do terror foram os kulaks. Muitos desses camponeses foram deportados de suas vilas e enviados para regiões inóspitas. Outros foram enviados para campos de trabalho forçado. Outros foram simplesmente assassinados. Posteriormente, o governo passou a perseguir os camponeses classificados como semi-kulaks e depois aqueles considerados simpatizantes dos kulaks.

4.2   O terror no campo

Conquest (1986), Fitzpatrick (1994), Kravchenko (1946) e Solzhenitsyn (1978) descrevem as diversas táticas adotadas pelo governo soviético para forçar os camponeses a aderirem aos kolkhozes. Seria possível listar e comentar algumas delas. Porém, esse procedimento possivelmente não proporcionaria ao leitor uma visão geral do desenrolar do processo de coletivização e do terror ao qual os camponeses foram submetidos. De forma a contornar esse problema, descreve-se abaixo a aplicação de algumas dessas táticas em Borodinovka, um hipotético vilarejo russo.
Borodinovka tinha aproximadamente 500 habitantes em 1928. Muitos deles eram filhos ou netos de servos que haviam sido emancipados em 1861, ano em que o Tzar Alexander II aboliu a servidão na Rússia. Inclusive, morava na vila um ancião que era um servo emancipado. Desta forma, a memória da servidão estava muito viva em Borodinovka.
Em abril de 1928 apareceram na cidade alguns agentes do governo soviético. Eles demandaram que os moradores entregassem uma certa quantidade de grãos. Como os habitantes entregaram menos de um terço do solicitado, os agentes passaram a revistar os depósitos, a igreja e as residências. O processo de revista envolveu a destruição de alguns móveis, a derrubada de algumas paredes e o espancamento de alguns habitantes. Após se convencerem que não havia mais grão a ser extraído dos camponeses, os criminosos bolcheviques se retiraram. Esse enredo de horror se repetiu em abril de 1929.
Em janeiro de 1930 um novo grupo de agentes governamentais chegou em Borodinovka. Porém, ao invés demandarem grãos, eles procuraram por Ivã, Nikolai e seis outros indivíduos. Esses eram justamente os mais prósperos agricultores do vilarejo. Exatamente por tal motivo, eles exerciam uma liderança natural sobre os demais moradores. A população foi informada que todos aqueles oito camponeses eram kulaks. Assim sendo, eles e as suas famílias seriam deportadas imediatamente. A população observou horrorizada Ivã, a sua esposa, as suas filhas de quatro e dois anos e o seu filho recém-nascido serem colocados com alguns poucos pertences em um desconfortável trenó. Em seguida, Nikolai, a sua esposa, o seu pai de 80 anos, a sua filha, o seu genro e os seus três netos também foram jogados em um segundo trenó. A tragédia se repetiu com as outras seis famílias. Incrédula e horrorizada, a população assistiu aos trenós partirem, no meio do gélido inverno russo, para um destino incerto. Nunca mais se ouviu falar daquelas famílias.
Uma semana depois, os moradores de Borodinovka foram informados que, graças à generosidade e à sabedoria do Partido Comunista, eles teriam a oportunidade de se filiarem a uma cooperativa agrícola. Para tanto, eles deveriam entregar as suas terras, os seus animais e outros bens para a cooperativa. Desnecessário dizer que aqueles camponeses ingratos e ignorantes, contaminados por um sentimento pequeno-burguês de apego à propriedade privada e à liberdade individual, tentaram não aderir ao nascente kolkhoz. Evidentemente, a resistência dos camponeses também foi causada pela profunda desconfiança que eles tinham do governo socialista e pelo fato de que eles associaram (corretamente, diga-se de passagem) a coletivização a um retorno da servidão.
Tendo em vista a determinação camponesa, em abril os agentes do governo anunciaram que iriam expurgar os semi-kulaks. Com isso, mais dez famílias foram deportadas de Borodinovka para um destino incerto. No dia seguinte à deportação, os agentes procuraram os camponeses remanescentes para verificar quem desejava ingressar no kolkhoz. Mais uma vez, não havia voluntários. Diante da resistência, os membros da quadrilha socialista espancaram dois camponeses até que eles aceitassem ingressar na cooperativa.
Em maio o governo voltou a pressionar os moradores de Borodinovka. Dessa vez, doze agricultores foram acusados de simpatizar com os kulaks. Dois deles foram executados, cada um com um tiro na nuca, na presença de quase todos os moradores do vilarejo. Os demais dez foram deportados juntamente com as suas famílias (e também as famílias daqueles dois que foram executados). Em seguida, os agentes do governo informaram aos camponeses que os kulaks e os seus simpatizantes estavam sabotando a coletivização. Desta forma, era crucial que todos os camponeses se unissem na luta contra o inimigo de classe. Para tanto, eles tinham que ingressar imediatamente no kolkhoz. Aquele que não seguisse essa determinação seria necessariamente um simpatizante dos kulaks. Desta feita, todas as famílias de Borodinovka se filiaram à cooperativa. O governo havia vencido.
Vale ressaltar que nem todas as táticas bolcheviques foram aplicadas no nosso vilarejo hipotético. Particularmente, em nenhum momento os habitantes de Borodinovka se defrontaram com uma escassez de alimentos. Conforme será discutido mais à frente, a coletivização fez com que milhões de camponeses morressem de fome.

4.3   Resistência e derrota

A resistência na hipotética vila de Borodinovka foi meramente passiva. Porém, em vários locais a resistência camponesa foi muito mais intensa. Inicialmente, há que se lembrar que a maior parte da população do Império Russo e da União Soviética vivia no campo. Desta forma, quase todos os integrantes dos exércitos que lutaram na I Guerra Mundial e na Guerra Civil Russa eram camponeses. Assim sendo, os soldados remanescentes daqueles conflitos faziam parte da população que estava sendo forçada a ingressar nas fazendas coletivas. Junte-se a isso a desconfiança que o camponês tinha do governo e o receio do retorno da servidão. Seria surpreendente se não houvesse uma feroz resistência, mesmo que localizada. E, conforme discutido abaixo, os camponeses lutaram desesperadamente.
De acordo com Werth (1999, p. 148-149) a polícia política soviética registrou 402 revoltas e grandes manifestações camponesas em janeiro de 1930. Em fevereiro e março tal estatística foi respectivamente igual a 1.048 e 6.528. Nesse último mês, 800 manifestações foram suprimidas pela força e mais de 1.500 agentes soviéticos foram feridos, severamente espancados ou mesmo mortos. Ao longo do ano em questão, 2,5 milhões de camponeses participaram de revoltas, motins e manifestações contra a coletivização.
A título de comparação, considere a maior de todas as manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff. Ela ocorreu em 15 de março de 2016 e reuniu entre 3,6 milhões (estimativa das polícias militares) e 6,9 milhões (estimativa dos organizadores) de pessoas em todo Brasil. Quando se leva em conta que a população soviética era aproximadamente igual a 155 milhões em 1930 e a brasileira 206 milhões em 2016, que os camponeses eram majoritariamente pessoas com baixa instrução e não tinham acesso a recursos como telefones, internet, redes sociais, etc e que o fluxo de informações era totalmente controlado pelo governo, percebe-se o quão forte foi a oposição à coletivização.
Seguindo um procedimento adotado por toda tirania, o governo soviético confiscou as armas de fogo em poder dos civis ao longo da década de 1920. Assim sendo, usualmente as armas mais poderosas dos camponeses sublevados eram tão somente machados e ancinhos. Evidentemente, tal resistência estava fadada ao fracasso. Sem armas de fogo e sem um movimento organizado a nível nacional, era apenas uma questão de tempo para que os camponeses fossem definitivamente derrotados pelos criminosos do Kremlin.
Apesar da disparidade de forças, a resistência camponesa foi tão severa que o governo chegou a temporariamente suspender o processo de coletivização. No dia 2 de março de 1930, o Pravda publicou um artigo intitulado “Embriagado pelo Sucesso. O autor era ninguém menos do que Stalin. Nesse texto o ditador afirmava que devido ao sucesso da política de coletivização, alguns ativistas excessivamente zelosos se deixaram levar pelo entusiasmo e estavam obrigando os camponeses a ingressarem nos kolkhozes. Tendo em vista que a compulsão poderia levar ao descrédito da política de coletivização, era preciso conter o excesso de zelo dos ativistas. Na ‘língua’ soviética, isso significava que era necessário interromper o processo de coletivização. O mesmo foi paralisado durante os meses de março e abril. Evidentemente, o governo aproveitou o período de paralisação para prender, deportar e executar alguns agricultores.
Os camponeses se opuseram de forma vigorosa à coletivização. Porém, essa era uma luta desigual. O estado soviético já era por demais poderoso para perder tal batalha. Em maio de 1930 a coletivização foi retomada a pleno vapor e não foi mais interrompida. Como resultado, em 1940 aproximadamente 97% das famílias camponesas estavam vinculadas a um kolkhoz ou a um sovkhoz. Apesar da sua desesperada resistência, quase 120 milhões de camponeses se tornaram servos da tirania vermelha.

5   Efeitos e consequências

Os impactos econômicos da coletivização sobre a agricultura e a pecuária da URSS foram absolutamente danosos. No curto prazo, houve uma queda na produção, redução no número de cabeças de gado e outros animais e, principalmente, uma fome generalizada que causou a morte de aproximadamente seis milhões de pessoas. Com relação aos efeitos de longo prazo, a agricultura soviética ficou essencialmente estagnada por anos.
De acordo com os dados disponíveis em Smirnov (2015, p. 147), a produção soviética de grãos teve uma queda de 17,3% em 1931. Houve uma recuperação de 9,4% em 1932, mas a safra daquele ano ainda foi inferior a de 1930. Os impactos sobre a pecuária também foram severos. Em 1928 o país possuía 108,0 milhões de cabeças de gado. Em 1932 e 33 essa estatística foi respectivamente igual a 50,7 e 52,5 milhões. Davies e Wheatcroft (2004, p. 327) apresentam informações adicionais sobre a degradação dos rebanhos soviéticos. Os bovinos abatidos nos anos de 1927 e 1928 pesavam em média 335 quilogramas. Em 1933 esse indicador havia caído para 231 quilogramas. Fenômeno similar ocorreu com os suínos, ovinos e caprinos.
A queda na produção de grãos e a redução do número de cabeças de gados fizeram com que a URSS sofresse uma profunda escassez de alimentos em 1932 e 33. Segundo Werth (1999, p. 159), mais de seis milhões de pessoas morreram de fome naqueles dois anos. A maior parte desses mortos era composta por camponeses, pois o governo tomou providências para que a escassez de alimentos atingisse as cidades de forma menos intensa do que as áreas rurais.
Dentre as diversas repúblicas soviéticas, a Ucrânia foi a mais afetada. O número de mortes naquela nação provavelmente excedeu a cifra de 2,5 milhões. O livro The Harvest of Sorrow (Conquest, 1986) é a principal referência sobre tragédia ucraniana. O website Holodomor 1932–33 também é bastante informativo.
Há evidências de que o governo soviético utilizou a escassez de alimentos como instrumento de pressão e terror. Por exemplo, a URSS exportou alimentos enquanto milhões de indivíduos morriam de fome. Vários autores entendem que ao proceder desta forma, o governo optou por não socorrer as vítimas. Outros afirmam que o governo atuou de forma a fazer com que a fome fosse particularmente severa na Ucrânia com o intuito de retaliar as tendências nacionalistas dos seus habitantes. Por fim, há um entendimento de que a fome serviu também para quebrar de vez a resistência dos camponeses à coletivização.
Alguém poderia supor que após superar o caos decorrente do processo da implantação do sistema de fazendas coletivas, o setor primário da URSS poderia então ter se desenvolvido. Contudo, isso não ocorreu. Assim como todos os outros setores da economia, a agricultura soviética sempre foi caracterizada pela ineficiência. Por exemplo, mesmo após a coletivização, os agricultores podiam utilizar livremente alguns pequenos lotes de terra. Ou seja, eles poderiam dispor livremente daquilo que fosse produzido naquelas áreas. De acordo com Wädekin e Karcz (1973, tabela 2, p. 45), em 1962 apenas 3,1% de toda a área cultivada da URSS estava alocada para o livre uso por parte dos agricultores. No mesmo ano, aqueles lotes foram responsáveis por 22,9% da colheita e 44,9% da produção pecuária (p. 58).
Para os camponeses, os efeitos da coletivização foram devastadores. Conforme já mencionado neste texto, eles ficaram presos à terra. Adicionalmente, ao longo de toda a existência da URSS, o padrão de vida no campo foi consideravelmente inferior ao observado nas regiões urbanas.

6   Alguns testemunhos

Apresentam-se nesta seção alguns relatos sobre a coletivização e os demais eventos que ocorreram naqueles trágicos anos. O primeiro testemunho é o de Nikita Khruschev, que poucos anos após a morte de Stalin se transformou no líder máximo da URSS. Nas suas memórias ele relata ter visitado, junto com outro membro do Partido Comunista, uma fazenda coletiva em 1930. De acordo com Khruschev (1970, p. 72), “Nós passamos apenas poucos dias na fazenda coletiva e ficamos absolutamente chocados com condições que encontramos. Os camponeses estavam morrendo de fome.
Victor Kravchenko foi membro do Partido Comunista e oficial do exército soviético durante a II Grande Guerra. Em 1944 ele foi enviado aos EUA em missão oficial e aproveitou a ocasião para obter asilo político. Em 1933 ele foi enviado pelo Partido Comunista à vila de Petrovo com a missão de mobilizar brigadas de trabalho para a colheita da safra. A sua narrativa (Kravchenko, 1946) sobre essa visita é absolutamente chocante. Apresentam-se quatro trechos selecionados:
Prevalecia um silêncio que não era deste mundo. “O povo comeu todos os cães, por isso tudo está tão quieto”, afirmou o camponês que nos guiava […]” (p. 112)
A nossa anfitriã era uma jovem camponesa. Todos os sentimentos, mesmo tristeza e medo, pareciam ter sido drenados da sua face faminta.” (p. 112)
O que eu vi naquela manhã […] era de um horror que não pode ser expresso. No campo de batalha os homens morrem rapidamente. Lá eu vi pessoas morrendo solitária e vagarosamente, morrendo hediondamente […] Elas foram capturadas em uma armadilha e abandonadas para morrer de inanição, cada uma em sua casa, por uma decisão política tomada em mesas de reuniões e de banquetes de uma distante capital.” (p. 118)
O que vi de mais assustador foram as pequenas crianças com membros esqueléticos pendurados em troncos inchados. A fome tinha removido todos os traços infantis dos seus rostos, transformando-os em carrancas torturadas […]” (p.118)
Kravchenko também relata que as pessoas desesperadas estavam se alimentando de esterco de cavalo. De acordo uma camponesa, muitas vezes se encontravam grãos inteiros no meio das fezes.
Aleksandr Solzhenitsyn (1918-2008) foi um dos maiores escritores russos. No capítulo 2 (The peasant plague) do volume 3 do seu monumental Arquipélago GULAG (1978) ele reproduz diversos relatos de pessoas que foram deportadas durante o processo de coletivização. Reproduzem-se abaixo dois trechos do texto em questão:
“Os camponeses sabiam o que o destino lhes reservava. E se eles tivessem a sorte de durante a viagem passar por locais habitados, quando ocorria uma parada eles faziam com que as crianças pequenas escapassem pelas janelas. Talvez pessoas generosas lhes ajudem! É melhor mendigar pelo mundo do que morrer conosco!” (p. 359)
“[…] uma mulher deu a luz durante a jornada […] A criança morreu durante a viagem […] Dois soldados embarcaram no trem para uma curta viagem entre duas estações, abriram a porta enquanto o trem estava em movimento e jogaram o pequeno corpo para fora.” (p. 360)
Segundo Solzhenitsyn, muitos camponeses foram deportados para o nada! Ou seja, pessoas foram simplesmente abandonadas no meio da estepe siberiana sem ferramentas, sem armas e sem alimentos. Werth (1999, p. 155) também relata essa prática. Surpreendentemente, algumas dessas pessoas que foram abandonadas sobreviveram. Na região do rio Ob alguns desses sobreviventes construíram um vilarejo. Anos depois, quando o governo soviético soube da existência do vilarejo, os sobreviventes foram mais uma vez deportados, desta vez para um local ainda mais remoto (Solzhenitsyn 1978, p. 366).
Muitas das pessoas que foram deportadas viraram prisioneiros e foram submetidas a trabalhos forçados. Dentre outras obras, elas trabalharam na construção do Canal Moscou-Volga. Mais de vinte mil prisioneiros morreram durante tal obra. De acordo com Solzhenitsyn (1978, p. 361), “Nos dias de hoje, barcos de passeio transportam turistas até aquele ponto para que eles desfrutem da vista de Moscou. Há ossos no fundo do canal, ossos no solo, ossos no concreto“. Ressalte-se que a menção aos ossos não foi uma mera figura de linguagem daquele autor; ou seja, essa citação deve ser entendida no seu sentido literal.

7   Considerações finais

O principal slogan da Revolução Russa de 1917 era “paz, pão e terra”. Em decreto emitido em fevereiro de 1918, o governo bolchevique determinou que “o direito de usar a terra pertence aqueles que a cultivam com o seu próprio trabalho”. Desta forma, nos seus estágios iniciais a Revolução parecia atender a aspiração dos camponeses de ter acesso à terra. Por outro lado, conforme apontado com muita propriedade por Solzhenitsyn (1978, p. 355), a coletivização envolvia tomar de 120 milhões de camponeses a terra que eles haviam conquistado com a revolução e, adicionalmente, amarrá-los a essa mesma terra na condição de servos. Stalin, um sujeito que antes da Revolução se dedicava a assaltar bancos, não hesitou em efetuar essa imensa traição.
A II Guerra atingiu à União Soviética de forma avassaladora em junho de 1941, quando o país foi invadido pelas forças nazistas. Assim como na I Guerra e na Guerra Civil Russa, os camponeses foram compulsoriamente alistados na forças armadas. Aquelas crianças que em 1931 tinham aproximadamente dez anos de idade e foram arrastadas para as fazendas coletivas impediram que os alemães ocupassem Moscou no final de 1941, foram vitoriosas na batalha de Stalingrado em 1943 e entraram em Berlim em 1945.
Ao contrário dos demais combatentes aliados, os soldados soviéticos tinham na sua retaguarda um governo traidor e cruel. Ainda assim, eles salvaram o país (e Stalin) do desastre. Graças a eles a URSS sobreviveu e foi alçada à condição de potência mundial. Apesar disso, com o fim da guerra boa parte dos soldados sobreviventes retornou à servidão imposta pelas fazendas coletivas. Certamente, a saga dos camponeses soviéticos foi uma das maiores tragédias do século XX.

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Apêndice

Esta subseção tem como objetivo fornecer uma estimativa do número de camponeses que foram alvos do processo de coletivização forçada. Como essa política teve início em 1929, buscar-se-á quantificar o número de camponeses (e familiares) livres em 1928.
Um censo realizado em 1926 apontou que aproximadamente 83% dos 147 milhões de soviéticos residiam no campo. Por outro lado, estima-se que em 1928 a população da URSS atingiu a cifra de 150 milhões de habitantes. Assumindo-se que distribuição das pessoas entre campo e cidade era aquela observada em 1926, pode-se então estimar que em 1928 a população rural era igual 83% de 150 milhões. Desta forma, aproximadamente 124 milhões de soviéticos viviam em áreas rurais no ano em questão.
O próximo passo consiste em identificar que fração daquelas 124 milhões pessoas ainda não estava vinculada ao sistema de fazendas coletivas. Sabe-se que, em 1928, 1,7% das famílias rurais estavam vinculadas ao sistema em questão. Logo, 98,3% das famílias ainda não haviam sido coletivizadas. Extrapolando a última estatística para o total de indivíduos vivendo no campo, conclui-se que 98,3% dos 124 milhões de habitantes das zonas rurais não estavam vinculados a fazendas coletivas. Como 124 x 98,3% é aproximadamente igual a 122 milhões, este último valor corresponde à estimativa desejada. Com os intuitos de facilitar a memorização e ter um valor mais conservador, adota-se a cifra de 120 milhões como o total de camponeses soviéticos que poderiam ser coletivizados. Por fim, ressalta-se que Harrison (1996) também menciona exatamente 120 milhões como o número de camponeses diretamente afetados pela coletivização.

Referências Bibliográficas

CHURCHILL. Winston S. Memórias da Segunda Guerra Mundial, v. 2. Terceira edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
CONQUEST, Robert. The Harvest of Sorrow: Soviet Collectivization and the Terror Famine. Nova Iorque: Oxford University Press, 1986.
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