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Chico Sucata - A Voz Que Narra as Vivências

Chico Sucata - A Voz Que Narra as Vivências

Francisco Alves de Oliveira, Chico Sucata, ou Chico Alves é figura pública, notícia em jornais, matéria em outras mídias, até do sul do país.  Empresário nascido no interior da Paraíba mas que vive em Fortaleza sendo conhecido por passar datas especiais como Natal, Ano Novo, última noite do Carnaval, Sexta-Feira da Paixão, aniversários, Noite de São João e até os jogos da Copa ao lado do mausoléu que construiu para sua esposa falecida em 1994 e porque garante que "tem a a maior sucata do mundo". "Seu" Chico é também filósofo nas horas vagas e conceitua seu dilema com o seguinte pensamento: "A morte não é o fim de uma amizade, mas sim o começo de uma grande saudade".

O espaço de Chico Sucata que engloba seu comércio e sua residência é grande mesmo, abrange a Avenida Sargento Hermínio, cruzamento com a via ferroviária da Avenida José Bastos, tendo aos fundos a Avenida Francisco Sá.  Ali estão o prédio e o imenso pátio do estacionamento, com sua variedade de ferros, combogós, caixas d'água, tubulações. A aglomeração peculiar ao caos das sucatas. Seu telefone comercial é 3281.5341, seu endereço consta como sito à Avenida Sargento Hermínio número 668. “Seu” Chico é notícia em jornais, programas de TV, revistas, tema para monografia. O Programa João Inácio Show da TV Diário mostrou a emocionante história do amor de Chico por Eliete. “Quem é essa mulher?

Eliete Francisca de Oliveira ainda era uma criança, quando ela e “seu” Chico se conheceram na cidade de Catolé do Rocha, na Paraíba. Eliete com sete anos e Chico com dez.
Passavam as tardes juntos e a brincadeira que “seu” Chico mais se lembra era a de tomar banho de açude com ela.
Desde então, não se “desgrudaram” mais. Tanto que “seu” Chico nem se lembra quando foi que realmente começaram a namorar. Só sabe que, dez anos depois, estavam casados e assim viveram por trinta e quatro anos, sem nunca terem, sequer, uma discussão.
Eliete sempre foi a inspiração da vida de “seu” Chico, a alegria e a força para construir tudo ao lado do marido. Sem nunca reclamar. Nem quando ele enchia o banheiro da casa com peças da futura sucata.
Companheira de todas as horas, amiga incondicional.
Mãe carinhosa e esposa compreensiva.
Sempre muito alegre. Eliete gostava de sair para dançar forró com “seu” Chico.
Gostava principalmente das músicas de Luiz Gonzaga.
E quando tocava “Assum Preto”, ela gritava: vem Chico! É a tua música!
Adorava carnaval, mas fazia questão mesmo era da terça-feira.
Reunia as meninas da vizinhança, mandava fazer fantasias para todos e iam brincar no clube, até o dia amanhecer.
Foram trinta e quatro anos de uma verdadeira história de amor.
E que ainda, não terminou” – narrativa no "Programa João Inácio Show".

A VOZ QUE NARRA AS VIVÊNCIAS

(Pesquisa Cultural Sociopoética)

Francisco Alves nasceu no dia 20 de abril de 1940, em Brejo dos Santos, em um sítio comunitário, no interior do Estado da Paraíba. Seus pais eram Manoel Alves da Silva, nascido em 1919, mais conhecido por Nequim e sua mãe chamava-se Cecília Jovelina da Conceição, nascida em 1926.
O casal teve quatro filhos: Francisco, Socorro, Maurina e Maria. As duas primeiras residem, ainda, no interior da Paraíba. Maria já faleceu, vítima de atropelamento.
A avó, paterna, “dona” Severina, pessoa bondosa e laboriosa, teve papel muito importante para o menino Francisco. A figura materna foi par constante na adversidade e contribuiu para o início da prosperidade do filho. A figura do pai é rude, opressora. Faleceu há poucos anos, sob os desvelos e total assistência por parte do filho Francisco Alves.
Sequencialmente surgem as crianças, amiguinhos de infância: os filhos de Pretim, o qual era um morador também do sítio comunitário, e, posteriormente, a menina Eliete Francisca, que chegou em Brejo dos Santos com os pais, vindos de Catolé do Rocha. Eliete aos sete anos de idade, Chico aos dez anos de idade, se encontraram e se se uniram para sempre.
Eliete nasceu no dia 21 de dezembro de 1942, em Catolé do Rocha, outro interior da Paraíba. Seu pai era proprietário de uma pequena, mas “sortida” mercearia.
O tio, paterno, “seu” Antonio Alves, posiciona-se na pré-adolescência de Chico Alves, conjuntamente após a avó Severina e a mãe Cecília. “Seu” Antonio, próspero comerciante, desde àquela época, ainda exerce suas atividades e atualmente alterna temporadas entre Mossoró e Fortaleza.
O casamento de Francisco, aos vinte anos de idade, e Eliete, aos dezessete anos de idade, ocorreu no dia 13 de setembro de 1960. O casal teve quatro filhos, mas criou e proporcionou estudo a oito crianças órfãs. Atualmente, ainda, no redor de “seu” Chico, muitas delas multiplicadas em filhos, que também o chamam por papai.
Na realidade, Eliete e Francisco viveram quase a vida inteira juntos, mas o casamento perdurou por trinta e quatro anos.
A própria filha, médica, detectou, por acaso, o sarcoma no seio da mãe, a qual sofreu por seis anos e dois meses, sob a desesperada busca de cura por parte do marido, inclusive em outros países, sobretudo no grande centro médico de pesquisas científicas de Cuba.
Em 1994, ambos fixando o olhar um no outro, a esposa faleceu, sempre a falar que nasceu e viveu só para ele.
Repousa em um mausoléu no cemitério São João Batista.
Quando não suporta a tristeza, “seu” Chico vai para lá.  Leva a TV, o jantar, a Coca-Cola, conversa com ela, e dorme no solo, junto ao túmulo.  Pela manhã volta pra casa. Faz isso desde quando a esposa foi sepultada até os dias atuais.

Ao longo das duas avenidas, Sargento Hermínio e Francisco Sá, no cruzamento com a Avenida José Bastos, frente à estação de sinalização ferroviária, constante como identificação de número 668, ergue-se sobre o espaço que ocupa dois quarteirões, o prédio de três pavimentos, com varanda, de azulejos azuis e róseos, mas que ao longe, aparenta ser branco.
Pelo lado da Avenida Sargento Hermínio, está escrito em grandes caracteres pretos: Chico Alves. Repete-se idêntica inscrição aos fundos, pelo lado da Avenida Francisco Sá, em uma imensa caixa d´água.
Advinha-se o supérfluo monetário, beneficamente transmutado em salários para mecânicos, vigias e agregados, que “seu” Chico trata como parceiros, “esses tudo são meus familiar, ‘pariceiros’ e amigos”, diz ele.
O empresário instalou-se em Fortaleza em 1972.
O presente estudo iniciou-se no dia 26 de agosto, deste ano de 2006.
No recinto da oficina, o sol adentra por todos os lados. Há o costume de não perguntar. Esperar com olhos agradáveis é a forma encantadora de receber quem chega.
Chico Sucata estava sentado numa cadeira de balanço.
Vozes, risadas, brincadeiras, muitos elementos masculinos por todos os lados. Um tumulto estabelece-se quando “seu” Chico vai se afundando na cadeira, vai se aprofundando na tristeza. É que Chico Sucata não pode ficar triste. Sua multidão de amigos conhece o momento e sabe evitar isso muito bem.
No instante em que foi solicitado que falasse sobre sua história, que seria para uma monografia do curso de Comunicação Social, que seria repassada com muita dignidade (...) no birô azul havia uma mocinha, nesse momento, ao atender uma chamada telefônica, ela o chamou de papai. Ele falava com o cliente, no telefone azul, antigo, de cilindro analógico. Terminado o contato, a balbúrdia teve continuidade.
De repente, Chico Sucata suplantou o barulho: “Cala a boca aí, cambada!”.
E negaceou. Não. A “imprensa” já falou demais disso. Não fala sobre Eliete. Mas falava sim. Ela era tudo de bom que ele teve. “Era só felicidade”.
De tanta emoção que transbordava nas suas narrativas foi possível a completa absorção do seu drama. Concordou.
Contou sua infância. Tudo foi realizado em três etapas, compostas de visitação para gravação às segundas e às terças- feiras, após as dezoito horas.
Dentre muitos acontecimentos de intensos sofrimentos, discorreu episódios cruéis.
Vivências estabelecidas no seu subconsciente, anteriores ao que a ciência considera a idade da razão.
Iniciou por 1945, estava aos cincos anos de idade.
Seu pai o obrigava a passar por baixo de burros bravos, que estavam sendo “amansados” e inclusive a montá-los, sob atos de crueldade para com ambas as partes. Ordenava que, depois da meia-noite, o menino fosse deixar as criações nas pastagens, distantes quatro a cinco quilômetros de casa. Nessas ocasiões, a mãe se escondia e acompanhava o filho na noite escura, sem que o marido percebesse.
Em 1947, foi ao grupo escolar, três dias. Quando o pai soube impediu que continuasse porque “estudar demais ficava doido”.
Ainda, nesse ano, ao passar por um burro bravo, sente pavor intenso, cai e fratura uma perna.
Sua mãe colocou duas tábuas, lateralmente, modelando a perna e amarrou com barbante.
O menino ficou vários meses deitado sobre uma porta, forrada com folhas de bananeira, a qual ficou sendo uma mesa macia.
Aos domingos, a mãe colocava a mesa na sala, quando o marido saía. Era o dia de feira e as pessoas que transitavam, davam esmolas ao menino.
O menino recebia moedinhas e para guardá-las, furou o gargalo de uma cabaça e soltava as moedas no interior.
Quando a cabaça ficou pesada, ele a quebrou. Com a quantia arrecadada, comprou uma carrocinha de pau e um carneirinho para puxar a pequena carroça, e circulava pelas redondezas, puxado pelo burreguinho . Ganhava mais moedinhas das pessoas pobres também, mas que sentiam aquela cena pungente do menino que não podia andar e era conduzido por um lanudo carneirinho. Guardava as moedinhas em novos porongos .
Passou-se assim o ano de 1948 para o menino Francisco.
Em 1949, o pai indispõe-se com um morador do sítio comunitário. Tiveram que sair de mudança para a localidade denominada Riacho dos Cavalos.
O pai, conhecido por Nequim, começou a negociar couros, de tejuaçus, de cobras, de criações. Guardava-os em um quarto, há metros da casa em que moravam.
O menino, aos nove anos de idade, foi encarregado pelo pai para cuidar dos couros.
Nesse tempo, um boi morreu, ficou numa vereda, ninguém quis. Francisco tirou o couro do boi e foi vender na tradicional feira aos domingos, em Catolé do Rocha.
Levou o couro a pé, sobre a cabeça, se escondendo dos caminhões que iam para a feira, para que a pessoas não caçoassem dele. Dessa venda, obteve fregueses para as suas próprias vendas. Seu pai comprava couros em um lugar, o menino comprava em outro.
O pai foi denunciá-lo na coletoria de impostos. Os fiscais apreenderam o rapazinho que atrapalhava as negociações do denunciante e que “não pagava impostos”.
O chefe da fiscalização ordenou que ele sentasse à sua frente. As perninhas finas do menino ficaram suspensas.
À frente do chefe da fiscalização de impostos estava um garoto sofrido, descalço, vestindo roupa de pano de saco de farinha, costurada à mão com agulha de enfiar cordão, que a mãe fazia para ele.
O fiscal soube que o denunciante era o seu próprio pai. Mandou soltá-lo e disse que continuasse a negociar.
O menino percorreu léguas a pé, retornando para casa.
Encontraram-se, ele e o pai. Então, o pai prometeu que lhe daria uma bicicleta, que as vendas ficariam melhores se fossem únicas do pai. O menino tinha seu dinheirinho. Foram a uma feira e compraram “de metade” com dinheiro do menino, uma bela bicicleta, de marca Monark.
O pai alugava mais a bicicleta do que a deixava com o filho, e, uma tarde, ordenou que o menino entregasse a bicicleta a um rapaz chamado Janduí, o qual, após alugar a bicicleta por muitas vezes, acabou por comprá-la. O menino estava na bicicleta. Um pé no pedal o outro no chão e desesperou-se. Jogou a bicicleta, correu chorando. Em casa sua mãe sentiu-se mal e desmaiou, suas irmãs choravam...
Foi essa a história da sua primeira bicicleta.
Mas, tudo passado, Francisco continuou a colocar os couros diariamente ao sol, observar e catar uma a uma as traças que roíam os pelos dos couros. Couro com defeito valia metade do preço.
E o pai avisou que cada falha no pelo de um couro seria uma pisa que lhe daria.
Nesse momento, o “seu” Chico manifesta indignação: “Imagine, um homem, com muita força, que poderia enfrentar um igual a ele, agredia era eu, uma criança de nove anos sem defesa de nada!”
Relata que o pai levantava-o por uma perna, e, suspenso no ar, chicoteava-o com a corda de croá , fixada por cabo de jucá . Enrolava na mão e brandia as chicotadas. Após jogava o menino no solo. “Agora vou olhar outro couro.” E repetia-se, pela contagem das falhas nos pelos, o zunir do açoite. “Seu” Chico diz que “sabia que estava desmaiado”.
As pessoas foram avisar à mãe do menino. Ela chegou, apanhou-o nos braços. Ele sangrava pela cabeça, pelos ouvidos, pelo nariz, pela boca, por todo o corpo.
Em casa a mãe o colocou sobre a pedra grande de lavar roupa e jogava água com a cuia . A sangria se espalhava pelo chão.
Quando se recuperou, com trinta dias, foi morar com a avó paterna a quem chamava por madrinha Severina.
A avó comprava ovos e galinhas para revender. Francisco a acompanhava.
Realizadas as compras, voltavam, com um balaio cheio de ovos e um pau-de-galinheiro repleto de galinhas penduradas.
Em 1949, “seu” Chico afirma que começou a negociar.
A avó Severina disse que se o neto quisesse, ela lhe emprestaria quinhentos “contos” para ele comprar algumas coisas.
E o menino, aos nove anos de idade, em cima de um misto , que fazia a rota Caicó a Crato foi até ao Juazeiro do Norte do Ceará.
Comprou ouro de baixo teor, que proliferam nas ourivesarias: miçangas , cordões , pulseiras, alianças, relógios e canetas.
Quando anoiteceu, o menino com seus produtos vagavam pela cidade. Teria que pernoitar.
Escutou quando um caminhoneiro perguntava se havia um rapazinho pra ficar no seu caminhão, enquanto tomasse um banho e jantasse. Francisco se ofereceu. O homem resolveu que o menino dormisse no caminhão. Ele iria dormir numa hospedaria. Ao amanhecer lhe daria um dinheirinho.
A cavalaria policial passou fazendo a ronda da madrugada e o menino se livrou desse perigo.
Pela manhã o caminhoneiro chegou e lhe deu o dinheirinho.
Era o horário de o misto retornar.
Esse ano, 1949, a avó e o neto negociavam seus produtos. Chico ajudava, carregava o pau-de-galinhas.
Em 1950, Francisco, aos dez anos de idade, foi até Campina Grande, importante centro comercial do Estado da Paraíba.
Dessa vez foi sobre a carroceria de um caminhão que carregava uma carga de suínos. Pagou cinco “contos”. O ajudante de caminhoneiro foi o tempo todo “enfezando ele”, além do odor dos porcos.
Chegou ao centro comercial e foi para o Armazém “Pecoitim”. Comprou o seu primeiro par de alpercatas.  A sola fina batia no solado do calcanhar e produzia um “lepo-lepo” onomatopaico.
Realizada a compra, perguntou ao vendedor sobre pontas de estoque para lhe vender. O funcionário respondeu com negativa. O menino insistiu. Perguntou quem era o dono e foi falar com ele.
Disse que era arrimo de família e negociava. O proprietário do grande armazém mostrou-lhe caixotes velhos com produtos sem demanda.
O menino comprou caixas quebradas de pó-de-arroz , perfumes em caixas rasgadas, brilhantinas fora de validade, espelhinhos sem lustro, pentes descorados.
Foram suas primeiras sucatas.
“Seu” Chico informa que “lá para diante” da sua história, 1955 a 1959, ele se tornaria um cliente atacadista do Armazém Pecoitim e amigo do proprietário.
Francisco retorna com suas mercadorias para o sítio em Brejo dos Santos onde vive com a avó.
Já possuíam uma bodeguinha .
Certa madrugada, por volta das duas horas, o pai chegou.
Foi convidar o filho para ajudá-lo a plantar uma roça.
Prometeu que lhe daria uma bicicleta, disse que ele levasse a bodega.
E o menino acompanhou o pai, de volta para Riacho dos Cavalos. Uma caixa de papelão continha a sua bodeguinha. A avó ficou só, com suas galinhas e ovos.
A distância de Brejo dos Santos a Riacho dos Cavalos era de trinta quilômetros.
1950. Chico tinha dez anos de idade. Trabalhava na roça com o pai, para ganhar a sua segunda bicicleta e também vendia “coisinhas na sua bodeguinha”.
Foi nesse ano que conheceu Eliete. O pai de Elite Francisca, morava em Catolé do Rocha e resolveu se estabelecer nas terras, com sua mercearia. A bodeguinha de Chico “acabou-se”.
Mas as crianças se encontravam, seguindo por uma vereda.
Francisco, as três irmãs, Eliete e os irmãos, e os meninos, filhos de Pretim.
As brincadeiras eram maravilhosas. Banhos de açude, casinhas com comidinhas, cantavam e rodavam, vestiam sabugos , eram donos de “boiadas” de ossos, brinquedos das crianças nordestinas feitos por articulações pequenas das vértebras bovinas.
A colheita do algodão rendeu uma grande quantia. O “seu” Nequim comprou a bicicleta numa feira e mandou que o menino fosse buscá-la, a três quilômetros de distância.
O menino foi a pé.
Encontrou uma bicicleta com a câmara de ar furada. Voltou a pé rebocando a bicicleta. Chegou a casa mais de meia-noite. Conseguiu cola e vedou o furo. Encheu o pneu. O dia raiou, mas ele ajeitou a sua bicicleta.
Nesse momento do relato, “seu” Chico manifesta visível angústia, como se estivesse revivendo a cena na realidade atual e disse, que “das coisas todas que lhe foram tiradas essa lhe doía muito, porque o pai não deixou que ele “tivesse” sua bicicleta, fruto de seu trabalho e comprada com seu dinheiro, nem por vinte e quatro horas”.
Às três da tarde, o pai vendeu sua segunda bicicleta.
Em 1951, Francisco disse para a mãe, que adorava estar com Eliete e que iria para as aulas com ela, os irmãos dela e os filhos de Pretim. Sua mãe respondeu-lhe que seu pai “não ia gostar”, Francisco disse que ele não ia saber por que só chegava em casa quando anoitecia.
E Francisco foi, dois dias.
No segundo dia o pai chegou a casa às duas da tarde.
Perguntou por Francisco. A mãe teve que dizer que ele havia ido para o grupo escolar com Eliete e os outros meninos.
Quando Francisco chegou às três horas da tarde, o pai mandou que ele fosse tirar os burros do cercado. Era para se afastarem da casa. Seguiu o menino, e, longe da casa, ergueu o braço segurando um pedaço de pau de marmeleiro e investiu para o açoite.
A mãe Cecília Jovelina estava cozinhando o feijão. Tirou um tição , correu até lá e avançou para cima do marido. Ele recuou com o lenho em fogo encostado no peito.
Francisco foi para o sítio comunitário em Brejo dos santos, morar com a avó Severina.
Meses depois, chegaram a cavalo, a mãe e Eliete.
Eliete disse: “Chico, nós viemos lhe buscar, porque eu sinto muita saudade de você.”
E voltaram os três: a mãe, Eliete e Chico, montados no cavalo.
Em dezembro de 1951, o “seu” Nequim expulsou a família de casa.
Providenciou um carro-de-bois e jogou, um pote de barro, um prato de cuia, um bornal de farinha, um caneco de alumínio, uma rede rasgada, a mulher, as três meninas e Chico. Enxotou a parelha de bois.
A família foi para Brejo dos Santos. “Seu” Manoel Alves ficou em Riacho dos Cavalos.
“Seu” Chico conta que o pai “ganhou o mundo, esteve em Goiás”. Depois reapareceu.
Idoso, ainda morou com Chico Sucata, mas sempre com sua peculiar má índole. “Seu” Chico passa a contar variados episódios sobre o velho pai em sua casa.
Pais separados.
A mãe debulhava milho e feijão para ficar com as palhas e fazer caldo para alimentar as crianças. Lavava roupas para outros pobres também, o menino
ajudava nessa tarefa, somente, por qualquer espécie de ajuda.
Pagavam aluguel a uma velha senhora, ríspida, que não tolerava barulhos.
A rede esgarçada era revezada entre os quatro irmãos. Cada um “entrava” na rede e ficava com as nádegas no chão. Depois era a vez da outra irmã, e, passavam a noite alternando-se dentro da rede rasgada, até que, uma noite, não houve mais possibilidade. Foi melhor, porque estirada no chão, cabia os meninos e a mãe e não faziam tanto chafurdo , pelo qual a locadora passava a noite reclamando com “psiu” .
Semanalmente, um determinado morador matava um boi, para venda à comunidade, e na hora de “tratar” das vísceras, jogava fora o "livro-de-seis-folhas" para os cachorros. E Francisco disputava com os cães, “o livro”.
Um grande cão – o rex, olhava para o menino e soltava-o para ele. Em triunfo levava para casa, cozinhava-o e “seu” Chico diz que era a melhor comida das quais se lembra.
Cascas de manga e de banana, restos de alimentos, eram levados, para comer, com a mãe e as irmãs.
Em meados de 1951 a mãe empregou-se para lavar xícaras e pratos em um restaurante simples.
Quando chegava a casa por volta das nove horas da noite, trazia os restos de sopa para o jantar da família.
Foi nessa época que Francisco estabeleceu uma lei para a mãe e as irmãs: “Só se gasta metade. Só se come metade.”
O dinheiro ele guardava metade numa fresta da parede de taipa. A sopa era recolhida antes que acabasse, era cozida novamente e esfriada. Era guardada para o almoço do dia seguinte.
Em 1952, a proprietária do restaurante resolveu vendê-lo por trezentos “contos”.
No “fundo de investimento”, “seu” Chico relata que havia “cem contos”. Dona Cecília Jovelina e o filho deram entrada a primeira prestação.
“Seu” Chico afirma que antes do término de cada mês, já ultrapassavam a quantia referente ao que seria a seguinte prestação.
A mãe era a gerente. O menino andava pelas ruas com um balaio contendo bolos, sequilhos, espécies , que ele mesmo fazia, para vender.
Haviam atingido a mobilidade social .
As bebidas eram colocadas em potes com água, para não esquentarem.
Os clientes eram bem acolhidos, valorizados.
Os caminhoneiros habituais passavam informações indicando positivamente o ponto de venda.
Em 1954, um tio, irmão do “seu” Nequim, vivia em boa situação financeira em Moçoró.
Tio Antonio Alves resolveu ajudar a sua cunhada e aos sobrinhos.
Um bar com geladeira a querosene, sinuca, boas instalações, estava à venda por cinqüenta e três “contos”.
O tio mandou um recado, por outro tio, para que Francisco fosse ao município de Santa Cruz de Inharé, próximo a cidade de Natal, entregar, ao “seu” José Agripino, promissórias e trazer a quantia de noventa e dois mil contos.
Francisco seguiu em cima de um caminhão.
Chegou por volta das duas horas da tarde. Disse quem era e a que veio.
O homem mandou que o menino entrasse.
No quintal havia uma mala da qual o homem tirou o dinheiro e entregou ao menino. Francisco contou as notas e após entregou as promissórias.
“Seu” Agripino olhava admirado o menino contando o dinheiro. Sorrindo, deu duzentos “réis” para ajudar na passagem.
De volta a Moçoró, com a quantia, Chico disse ao tio que só precisava de quarenta, porque o bar custava cinqüenta e três, e ele já tinha treze “contos”.
O tio insistiu que o dinheiro era todo dele, mas ele disse que não levaria. Deixou com o “seu” Dias, vizinho do tio Antonio, o qual era dono de uma torrefação.
Trouxe somente os quarenta “contos”.
Em 1958, Chico ficava no bar à noite, substituindo a mãe a qual permanecia durante o dia. Tirou um cochilo no balcão e sentiu a mão de São Francisco sobre a sua cabeça e ouviu por três vezes o santo lhe dizer: “Meu filho, tenha cuidado”. Chico acordou e, de imediato, colocou umas portas encostadas no vão do portal, pois o bar não tinha portas colocadas. Então, escutou rumores de malfazejos que passavam. Esfaquearam um homem numa rua adiante.
No dia seguinte Chico “assentou” as portas.
1959. O rapazinho Francisco continuava, desde 1955 a comprar no armazém Pecoitim, em Campina Grande. Fretava dois a três caminhões para trazerem a matéria-prima para negociar: Cereais, bebidas, querosene, álcool, miudezas.
Fornecia para quatrocentos e seis clientes.
No dia 13 de setembro de 1960, Chico aos vinte anos de idade, casou com Eliete Francisca.
Moravam com a mãe, Cecília. Com ajuda de Eliete compraram o primeiro imóvel. Estabeleceram fábricas de bebidas, cajuínas, doces, sabão.
Em 1961 o tio Antonio Alves mandou-lhe um jipe.
“Seu” Chico relata que em 1962 possuía grande comércio e fama.
Residiram em Mossoró, no Maranhão, onde não se deram bem e, vieram para Fortaleza em 1972.
O menino Francisco, hoje Chico Sucata, exímio em cálculos matemáticos, lê, escreve, habilitado e perfeito motorista,  na totalidade, frequentou apenas oito dias de aula, em épocas diferenciadas. Três dias, depois três dias em 1947 e dois dias, em 1951... ... 
Exibições: 1990

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